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quarta-feira, 15 de junho de 2016

Alice no País das Maravilhas e a identidade


Esse é um trabalho que eu fiz para meu curso de letras.






    A construção da identidade e o questionamento a respeito da mesma sempre foi objeto de estudo da psicologia e também fora representada de diversos meios na literatura e nas artes. As perguntas “Quem sou eu?” “O que sou eu?” “Qual o meu papel no mundo?” sempre fizeram parte não só do nosso processo de autoconhecimento como também ressurge em diversas vezes na nossa vida quando nos deparamos com profundas questões existenciais e/ou relacionadas à nossa estima.
    No livro Alice no País das Maravilhas, a personagem principal Alice é levada a fazer por diversas vezes este questionamento, e não somente sobre sua identidade, mas também sobre seu estado de espírito e sanidade, quando se envolve em situações confusas e estranhas em comparação ao seu estilo de vida até ali. Como por exemplo, quando ela se encontra presa no salão das portas, por que comeu um bolo que a fez crescer mais do que o espaço, Alice então começa a se questionar se não foi trocada durante a noite e passa a se comparar a todas as meninas de sua idade que conhecia, por notar diferença existente entre o que ela sabe que é e o que ela sabe que as outras são, realiza um processo de eliminação. Uma atitude que às vezes tomamos quase inconscientemente e muito importante para a afirmação de nossa identidade, afinal, para saber quem somos e do que gostamos precisamos definir quem não somos e do que não gostamos. Ela se dar conta de que deve ser Mabel, a menos inteligente de sua turma..

 Alice chega a essa conclusão após tentar recitar um poema, “ A abelhinha esforçada” (um poema vitoriano que as crianças eram obrigadas a decorar e recitar em sarais) mas acaba recitando uma paródia, Lewis Carroll, autor do livro, tinha por costume parodiar muitos poemas e musicas de sua época,  e expôs na boca e sua personagem uma de suas paródias, mas Alice não vê como paródia, para ela a música está toda errada mesmo ela sabendo a de cor, ela então tenta fazer cálculos, mas novamente acaba errando, Alice não sabe (é nós só somos informados no final do livro) que ela está sonhando, e quando sonhamos não temos as vezes total controle sobre nossos conhecimentos. A pobre Alice não aceita ser Mabel, pois o que ela sabe de sua coleguinha (que pelo visto é ela mesma) é mora em uma casa pequena, sem muitos brinquedos e com muitas lições para estudar, então toma uma decisão:
“Eu vou ficar aqui em baixo até que alguém me chame aí eu vou perguntar quem eu sou e se eu gostar de ser essa pessoa eu subo (...)”
Não sabendo como lidar com o mistério de sua verdadeira identidade, Alice transfere a pergunta a quem lhe conheça melhor, ou quem se importe com ela. Mas essa está longe de ser a única vez em que ela se questiona sobre quem ela é, na mesma cena, ela entra em conflito consigo mesma, literalmente, mas agora a questão não é exatamente a identidade, mas a divisão dela. Alice costuma às vezes fingir ser duas pessoas, geralmente para se auto repreender, ela é uma criança curiosa e travessa, mas tem um lado que dá broncas em si mesmo, dá conselhos e ordem, ela precisa se manter estável, não ser levada demais, algo que esse lado sério dela impede (ou tenta impedir) mas também não é comportada e contida o tempo todo, o fato de ter parado naquela situação é um exemplo disso, podemos aí então reparar a luta da razão e do desejo, o lado ‘racional” de Alice, manda ela não chorar tanto, não trapacear nos jogos, e talvez seja ele quem decide olhar duas vezes em frasco para ver senão está escrito veneno antes de bebê-lo (como manda a etiqueta deste) já o lado mais impetuoso dela é quem decide correr atrás de um coelho nem que para isso ela entre em um túnel e caia em um buraco, é este último que acaba sempre vencendo, pois no decorrer da história ela sempre acaba por tomar atitudes não muito bem pensadas. Outro momento em que Alice se questiona ou/e é questionada é quando encontra o personagem do Gato de Cheshire, um gato que sorri e se evapora
“-Todos são loucos por aqui, eu sou louco, você é louca- diz o gato
-Como sabe que eu sou louca?
-Deve ser, se não teria vindo para aqui-“

O Gato de Cheshire sabe (ou parece saber) que uma pessoa normal (ou considerada normal) jamais iria para um lugar onde todas as criaturas são loucas e não podemos contradizê-lo quanto a isso, tanto quanto ao fato de o lugar ser de loucos quanto ao de Alice ser louca para estar lá, mas afinal, o que é a loucura? No livro o Gato põe como exemplo todos os gatos, diz que são loucos por terem atitudes contrárias as dos cães, e em todo o País das Maravilhas, Alice vê personagens agindo a todo instante de maneira muito diferente ao que ela está acostumada em sua sociedade, mas no livro todo vemos grandes críticas a sociedade na época, Carroll mais uma vez faz um grande paródia de todas as convenções e modas de seu tempo: meados do século XIX. Mas voltando ao questionamento principal, tem-se aí uma outra afirmação interessante sobre a identidade de Alice, a de que seu lado menos racional é louco, pois foi este lado que a levou aquele lugar, ora isto é fato, não só na era vitoriana mas inclusive nos dias de hoje, qualquer pessoa que decida satisfazer seus desejos de curiosidades e agir de maneira menos racional é chamado de louco. Mas também vemos novamente o princípio de saber o que se é por saber o que não se é, já que “louco” é tudo aquilo que contrário ou diferente do que é “normal”.  Uma outra ocasião em que Alice é questionada é quando encontra a lagarta:
‘-Quem é você?
-Eu não sei dizer Sir.. Eu sabia quem eu era quando eu acordei agora de manhã... mas já mudei tantas vezes desde então..(...) ‘
 Alice se refere às mudanças de tamanho que sofreu até ali, e durante todo o diálogo com a personagem da Lagarta, cita elas para explicar o quanto está confusa sobre a sua identidade. Ela de fato mudou muitas vezes de tamanho, sempre em decorrência de alguma coisa que ingeria, ora estava muita alta, ora muito baixa, mas nunca no seu tamanho ideal,  mas as mudanças não são os únicos motivos para Alice se sentir estranha, novamente ela tem de recitar um poema, “Pai William” e novamente ela recita uma geniosa paródia, que a Lagarta por sua vez diz estar tudo errada. Não é a última vez em que Alice recita paródias ao vez do texto original e é confrontada pelas palavras estarem fora de lugar, mas o fato de não demonstrar os seus conhecimentos não pode fazer juz a usa confusão o tempo todo, já que em outras passagens do livro ela não perde a oportunidade de demonstrá-los, mesmo que esteja sozinha.


Sendo essas auto-indagações muito recorrente na adolescência ou no período da puberdade, poderíamos supor (como muitos já o fizeram) que as passagens em que Alice se confronta sobre sua identidade são metáforas da vida que fazem total alusão ao crescimento e claro, ao auto conhecimento. Não tirando a razão dessa e de outras interpretações, acrescento, porém que o autor da obra, Lewis Carroll, também vivia em constante questionamento sobre sua real essência, compartilhando com sua personagem (e até por que não, alterego) o costume de se autorepreender, e de se dividir, ora Lewis Carroll, o escritor de história infantis, eternizado por sua obra nonsense, contador de fábulas fantásticas e amigo de muitas, muitas crianças, ora Charles Lutwidge Dodgson, (nome de batismo) professor de matemática na universidade de Oxford, clérigo e conservador, totalmente oposto um ao outro, em uma época em que não se permitiam muitas liberdades, e a construção da identidade era por vez mais complexa, além de fazer uma critica a uma sociedade caótica e censora. 

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