Esse é um trabalho que eu fiz para meu curso de letras.
A construção da identidade e o questionamento a respeito da
mesma sempre foi objeto de estudo da psicologia e também fora representada de
diversos meios na literatura e nas artes. As perguntas “Quem sou eu?” “O que
sou eu?” “Qual o meu papel no mundo?” sempre fizeram parte não só do nosso
processo de autoconhecimento como também ressurge em diversas vezes na nossa vida
quando nos deparamos com profundas questões existenciais e/ou relacionadas à
nossa estima.
No livro Alice no
País das Maravilhas, a personagem principal Alice é levada a fazer por diversas
vezes este questionamento, e não somente sobre sua identidade, mas também sobre
seu estado de espírito e sanidade, quando se envolve em situações confusas e
estranhas em comparação ao seu estilo de vida até ali. Como por exemplo, quando
ela se encontra presa no salão das portas, por que comeu um bolo que a fez crescer
mais do que o espaço, Alice então começa a se questionar se não foi trocada
durante a noite e passa a se comparar a todas as meninas de sua idade que
conhecia, por notar diferença existente entre o que ela sabe que é e o que ela
sabe que as outras são, realiza um processo de eliminação. Uma atitude que às
vezes tomamos quase inconscientemente e muito importante para a afirmação de
nossa identidade, afinal, para saber quem somos e do que gostamos precisamos
definir quem não somos e do que não gostamos. Ela se dar conta de que deve ser
Mabel, a menos inteligente de sua turma..
Alice chega a essa
conclusão após tentar recitar um poema, “ A abelhinha esforçada” (um poema
vitoriano que as crianças eram obrigadas a decorar e recitar em sarais) mas
acaba recitando uma paródia, Lewis Carroll, autor do livro, tinha por costume
parodiar muitos poemas e musicas de sua época,
e expôs na boca e sua personagem uma de suas paródias, mas Alice não vê
como paródia, para ela a música está toda errada mesmo ela sabendo a de cor, ela
então tenta fazer cálculos, mas novamente acaba errando, Alice não sabe (é nós
só somos informados no final do livro) que ela está sonhando, e quando sonhamos
não temos as vezes total controle sobre nossos conhecimentos. A pobre Alice não
aceita ser Mabel, pois o que ela sabe de sua coleguinha (que pelo visto é ela
mesma) é mora em uma casa pequena, sem muitos brinquedos e com muitas lições
para estudar, então toma uma decisão:
“Eu vou ficar aqui em
baixo até que alguém me chame aí eu vou perguntar quem eu sou e se eu gostar de
ser essa pessoa eu subo (...)”
Não sabendo como lidar com o mistério de sua verdadeira
identidade, Alice transfere a pergunta a quem lhe conheça melhor, ou quem se
importe com ela. Mas essa está longe de ser a única vez em que ela se questiona
sobre quem ela é, na mesma cena, ela entra em conflito consigo mesma,
literalmente, mas agora a questão não é exatamente a identidade, mas a divisão
dela. Alice costuma às vezes fingir ser duas pessoas, geralmente para se auto
repreender, ela é uma criança curiosa e travessa, mas tem um lado que dá
broncas em si mesmo, dá conselhos e ordem, ela precisa se manter estável, não
ser levada demais, algo que esse lado sério dela impede (ou tenta impedir) mas
também não é comportada e contida o tempo todo, o fato de ter parado naquela
situação é um exemplo disso, podemos aí então reparar a luta da razão e do
desejo, o lado ‘racional” de Alice, manda ela não chorar tanto, não trapacear
nos jogos, e talvez seja ele quem decide olhar duas vezes em frasco para ver
senão está escrito veneno antes de bebê-lo (como manda a etiqueta deste) já o
lado mais impetuoso dela é quem decide correr atrás de um coelho nem que para
isso ela entre em um túnel e caia em um buraco, é este último que acaba sempre vencendo,
pois no decorrer da história ela sempre acaba por tomar atitudes não muito bem
pensadas. Outro momento em
que Alice se questiona ou/e é questionada é quando encontra o
personagem do Gato de Cheshire, um gato que sorri e se evapora
“-Todos são loucos por
aqui, eu sou louco, você é louca- diz o gato
-Como sabe que eu sou
louca?
-Deve ser, se não
teria vindo para aqui-“
O Gato de Cheshire sabe (ou parece saber) que uma pessoa
normal (ou considerada normal) jamais iria para um lugar onde todas as criaturas
são loucas e não podemos contradizê-lo quanto a isso, tanto quanto ao fato de o
lugar ser de loucos quanto ao de Alice ser louca para estar lá, mas afinal, o
que é a loucura? No livro o Gato põe como exemplo todos os gatos, diz que são
loucos por terem atitudes contrárias as dos cães, e em todo o País das
Maravilhas, Alice vê personagens agindo a todo instante de maneira muito
diferente ao que ela está acostumada em sua sociedade, mas no livro todo vemos
grandes críticas a sociedade na época, Carroll mais uma vez faz um grande
paródia de todas as convenções e modas de seu tempo: meados do século XIX. Mas
voltando ao questionamento principal, tem-se aí uma outra afirmação
interessante sobre a identidade de Alice, a de que seu lado menos racional é louco,
pois foi este lado que a levou aquele lugar, ora isto é fato, não só na era
vitoriana mas inclusive nos dias de hoje, qualquer pessoa que decida satisfazer
seus desejos de curiosidades e agir de maneira menos racional é chamado de
louco. Mas também vemos novamente o princípio de saber o que se é por saber o
que não se é, já que “louco” é tudo aquilo que contrário ou diferente do que é
“normal”. Uma outra ocasião em que Alice é questionada
é quando encontra a lagarta:
‘-Quem é você?
-Eu não sei dizer Sir..
Eu sabia quem eu era quando eu acordei agora de manhã... mas já mudei tantas
vezes desde então..(...) ‘
Alice se refere às
mudanças de tamanho que sofreu até ali, e durante todo o diálogo com a
personagem da Lagarta, cita elas para explicar o quanto está confusa sobre a
sua identidade. Ela de fato mudou muitas vezes de tamanho, sempre em
decorrência de alguma coisa que ingeria, ora estava muita alta, ora muito
baixa, mas nunca no seu tamanho ideal,
mas as mudanças não são os únicos motivos para Alice se sentir estranha,
novamente ela tem de recitar um poema, “Pai William” e novamente ela recita uma
geniosa paródia, que a Lagarta por sua vez diz estar tudo errada. Não é a
última vez em que Alice
recita paródias ao vez do texto original e é confrontada pelas palavras estarem
fora de lugar, mas o fato de não demonstrar os seus conhecimentos não pode
fazer juz a usa confusão o tempo todo, já que em outras passagens do livro ela
não perde a oportunidade de demonstrá-los, mesmo que esteja sozinha.
Sendo essas auto-indagações muito recorrente na adolescência
ou no período da puberdade, poderíamos supor (como muitos já o fizeram) que as
passagens em que Alice
se confronta sobre sua identidade são metáforas da vida que fazem total alusão
ao crescimento e claro, ao auto conhecimento. Não tirando a razão dessa e de
outras interpretações, acrescento, porém que o autor da obra, Lewis Carroll,
também vivia em constante questionamento sobre sua real essência,
compartilhando com sua personagem (e até por que não, alterego) o costume de se
autorepreender, e de se dividir, ora Lewis Carroll, o escritor de história
infantis, eternizado por sua obra nonsense, contador de fábulas fantásticas e
amigo de muitas, muitas crianças, ora Charles Lutwidge Dodgson, (nome de
batismo) professor de matemática na universidade de Oxford, clérigo e
conservador, totalmente oposto um ao outro, em uma época em que não se
permitiam muitas liberdades, e a construção da identidade era por vez mais
complexa, além de fazer uma critica a uma sociedade caótica e censora.
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